Pedal na Serra Catarinense*
outubro 21st, 2011
O dia clareava com frio e garoa e nós montávamos as bikes para enfim iniciar a nossa aventura pela serra catarinense. Eu, Danielle Sauner e Letícia Zewe saímos pedalando da rodoviária de Lages no dia 28 de abril com o projeto de chegar a Florianópolis sem data certa, mas com um roteiro já definido que incluía a descida da Serra Corvo Branco e escalada na capital catarinense. Estávamos certas que mais importante que chegar era curtir a viagem e ter tempo para aproveitar o inesperado que este tipo de aventura proporciona. Nos alforjes levamos tudo o que poderíamos necessitar durante a viagem, equipamento de camping, cozinha e algum alimento, além é claro de cadeirinha e sapatilha de escalada. Auto-suficientes, poderíamos parar e dormir onde as pernas decidissem descansar.
O primeiro dia de pedal nos levou por uma estrada de asfalto, com um tráfego considerável nos primeiros 31 km, até a localidade de Painel. Anoraque e luva nestes primeiros km e mate pare esquentar na primeira parada. De Painel pegamos uma estrada secundária, também de asfalto, até Urupema. Muita subida e menos movimento, era raro passar um carro, mas tivemos que desviar de vários preás que cruzaram nosso caminho. Por volta da uma da tarde chegamos a Urupema, uma cidadezinha com apenas uma rua principal e muita araucária. Já havíamos percorrido quase 60 km e depois do almoço e de uma hora de descanso seguimos pela estrada de chão que nos levaria até Rio Rufino. Eram cerca de 10 km de serra e durante os primeiros 3 km já decidimos que era hora de encontrar lugar para dormir. Como era uma região de serra não havia muito lugar para montar barraca, e não
encontramos nenhuma propriedade até então. Estávamos no dilema de voltar para Urupema para dormir ou tocar em frente sem saber se chegaríamos com luz na próxima cidade. Quando então passa pela estrada um senhor montado a cavalo no melhor estilo gaucho de ser. Seu Aldo trabalhava na fazenda da Dona Graça, próximo dali, e segundo ele, a senhora teria prazer em nos deixar acampar em sua propriedade. Mais uma subidinha para fechar o dia, a qual para surpresa do seu Aldo a Polaca botou para cima, e chegamos na Fazenda
Morro Agudo.
Dona Graça, recém viúva do ex-prefeito de Urupema, nos recebeu como se fossemos parentes distantes, daqueles que não se vê há muito tempo. A garoa estava mais forte e fomos acolhidas no galpão da casa. Seu Aldo fez fogo na enorme lareira de chão e a Dona Graça nos ofereceu misturinhas (bolachas de nata) com café. Dormimos ao lado da lareira em cima de alguns pelegos. Um luxo só!!!
A região serrana de Santa Catarina é fortemente marcada pela cultura gaucha, a fronteira ali só existe no papel, porque a cultura é uma só. O povo vive da criação de animais, e antigamente da extração de madeira, ali no alto da serra não existe muito cultivo e o cavalo é o melhor amigo do homem. A propriedade da dona Graça é cercada por muros de taipas (muros feitos de basalto) como manda a tradição. O Chimarrão, a bombacha e as histórias contadas ao redor do fogo fazem parte da rotina do povo serrano.

O dia seguinte amanheceu fechado, com uma névoa grossa. Seu Aldo nos ofereceu um camargo, bebida tradicional, café com leite tirado da teta da vaca direto na xícara, espumoso e quentinho. Impossível pegar a estrada cedo com tanta hospitalidade. Na saída dona Graça nos convidou para conhecer sua case e tomar café da
manha com ela. A mesa oferecida para três desconhecidas deixaria muito café colonial da cidade grande no chinelo. Manteiga, queijo e mel da fazenda, misturinhas e bolinhos de chuva com queijo. Já passavam das nove horas da manhã quando partimos da Fazenda Morro Agudo, com a imagem da dona Graça e seu Aldo nos acenando do portão. Por isto é tão legal viajar de bicicleta. Estar fora do carro te deixa mais próximo das pessoas, da vida local, e de experiências como esta.
Felizes da vida, com a energia renovada e chuvisco na cara pedalamos serra a cima. Passamos pela Cachoeira que Congela, ponto turístico da região de Urupema, e pelo Morro da Antena 1.750m. Depois só descida até Rio Rufino. Neste dia nosso objetivo era chegar a Urubici, onde já tínhamos pouso certo. Até Urupema havíamos subido muito, e o trajeto de cerca de 35 km de Rio Rufino até Urubici por estrada de chão foi mais tranqüilo. Fomos pedir pouso na casa do Clé, na subida para o Morro da Igreja, e a cerca de 15 km do centro de Urubici. Da subida para o Morro da Igreja paramos no km3 onde fica localizado o Chalé dos Sonhos. O amigo Cleversom vive ali há 11 anos cultivando frutas, produzindo e comercializando geléias. Damasco, morango, phisalis, figo, framboesa, pêssego, goiaba da serra são algumas das delícias que você pode encontrar por lá, sem falar do visual incrível do vale. Como somos boas meninas, mais uma vez o universo nos presenteou com este lugar incrível e com a hospitalidade e companhia do Clé. Além de ótima pessoa é um excelente cozinheiro. Oferece refeições em sua casa, basta reservar antes de subir o Morro da Igreja, que na volta ele vai estar preparando um delicioso jantar para você. A vida estava tão boa no Vale dos Sonhos que não resistimos e ficamos um dia a mais por ali.
Apenas descansando, comendo geléias e admirando a beleza daquele vale.

No terceiro dia de pedal, após uma madrugada fria, quando a temperatura atingiu 4ºC, finalmente o céu amanheceu limpo e de um azul de arder os olhos. Que lindo ter o privilégio de desfrutar de um dia desses
num lugar incrível como a Serra do Corvo Branco. Saímos às sete da manhã, percorremos um trajeto de estrada que está sendo pavimentado, o desenvolvimento chegando à região. Necessário talvez, mas completamente destoante do resto da paisagem. Algumas subidas, suor na camisa e finalmente chegávamos ao ponto de descida
da Serra do Corvo Branco. No dia mais lindo da viagem estávamos ali, descendo por aquelas estradas íngremes com todos aquelas montanhas ao redor, a boca chegava a secar. Descemos lentamente, muitas fotos, muitas paradas procurando por paredes escaláveis.
A Serra do Corvo Branco parece ser um barreira geográfica e cultural. Após a descida a paisagem mudou e o povo local também. Neste mesmo dia chegamos à localidade de Rio Fortuna e pelo trajeto se percebe a forte influência da cultura européia e a grande quantidade de plantações. São casas e propriedades com um cuidado e capricho que até parece que você está percorrendo sets de filmagem. Felizmente a hospitalidade continuou a mesma. No interior você pede água e recebe café com bolo e muito proza. As pessoas têm tempo para conversar, se interessam pelo outro, mesmo sendo um desconhecido. Em Rio Rufino ficamos dormindo na edícula da casa de uma senhora que conhecemos na entrada da cidade. Viúva há cerca de 20 anos, sentou e converssou com agente no fim de tarde, nos contou feliz que tinha casado novamente. Partimos cedo no dia seguinte, com cerca de 50 km de estrada de chão a serem pedalados no dia. A próxima parada era a cidade de São Bonifácio. Chegamos na cidadezinha aos pés da Serra do Tabuleiro para o almoço e esperamos a chuva passar deitadas na praça. O cansaço já estava pegando forte e depois do almoço nosso pedal durou apenas 6 km, até o Restaurante da Ilha, local que oferece hospedagem por R$15,00 além do luxo de estar localizado a beira do rio, com cachoeira e tudo mais. O dia acabou cedo, antes de escurecer cada uma já estava deitada na sua cama.

Quinto e último dia de pedal. Faltavam cerca de 78 km de asfalto até Florianópolis e ainda tínhamos que vencer a subida da Serra do Tabuleiro. O que mais preocupava era a chegada na ilha. O crux da viagem não foi às subidas até Urupema, ou a descida íngreme da Serra do Corvo Branco, foi com certeza o transito da BR 101 entre São
José e Palhoça. Graças a um pneu furado descobrimos que existe uma ciclovia que passa por baixo da ponte Hercílio Luz e assim chegamos a Florianópolis no dia 03 de maio. Porem a nossa aventura ainda nos reservava algumas surpresas. O nosso ponto final era o Rio Vermelho, e então descobrimos que ainda faltavam cerca de 40 km até a casa da amiga Andréa. Percorremos a beira mar toda por ciclovia, uma beleza!
Passamos o morro de acesso a Lagoa, depois o morro de acesso a Barra ainda o morro da Praia Mole. Chegamos à Rua do Arvoredo, no Rio Vermelho com as últimas luzes do dia e segundo nossos cálculos com 120 km pedalados no dia. O corpo doendo e a cabeça feita. Em Florianópolis enfim fomos usar a cadeirinha e a sapatilha que
carregamos durante os 370 km pedalados. Escalada na ilha de Santa Catarina também é programa de tirar o chapéu. Tem boulder na beira da praia, Morro da Cruz, Pedra Branca e Pedreira do Abrahão, mas isso já é assunto para uma próxima matéria.
Suar a camisa, sair de dentro do carro, ver o mundo de outro ângulo, ter tempo para pensar, para conversar com quem não se conhece, sentir o vento na cara, a descida depois de cada subida, observar a mudança da paisagem, receber carinho desinteressado de gente nunca antes vista, são apenas algumas das experiências que só se vive viajando em cima de uma bicicleta. Se ainda não fez, agilize!
*Texto originalmente publicado no Jornal da Montanha, ed 04.
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A temporada de 2010 na Cordilheira Branca estava bem distinta devido a pouca quantidade de neve, já que as chuvas de verão foram amenas e não houve acúmulo de neve nas montanhas. O clima também estava mais instável, com janelas de tempo bom de cerca de uma semana seguidas por vários dias de mau clima. Muitas vias de escalada de muitas montanhas sofreram mudanças, algumas ficaram mais fáceis, outras mais difíceis. O Maparaju, por exemplo, no ano anterior oferecia cômodas rampas de neve para acessar o glaciar. Esta temporada, quando voltamos para lá, nos deparamos com uma parede de gelo de inclinação de cerca de 60 graus, o que nos fez procurar outro caminho de acesso e aumentou a caminhada em cerca de duas horas. Infelizmente não realizamos cume, pois nos faltou tempo hábil, já que é estritamente recomendado abandonar o glaciar nas horas mais quentes do dia.
Mas as mudanças causadas por pachamama todos os anos nos glaciares da Cordilheira Branca também nos beneficiou. Escalamos o Quitaraju (6040m), pela face norte com 450m de parede de 60 a 80 graus de inclinação em uma madrugada muito fria de lua cheia e com uma neve dura com a consistência de isopor, perfeita! Se tivesse mais neve na parede a escalada não teria sido tão prazerosa e segura. O Quitaraju está localizado na Quebrada Santa Cruz, ao lado do Alpamayo. O acesso até o acampamento alto leva de 3 a 4 dias.
Ainda na onda de provar experiências novas, surgiu a oportunidade de fazer um pedal pelo interior de Santa Catarina. Tudo começou com a notícia que iria acontecer na região de Rio dos Cedros, que abriga o Circuito Vale Europeu, um encontro de escalada.O circuito tem cerca de 300 km e foi criado especialmente para a realização de ciclo turismo. Proposto para ser realizado em sete dias, são cerca de 45 km por dia, com local de saída e chegada pré definidos, geralmente pousada ou hotel de alto nível.

O melhor da escalada foi ver a tchurma reunida, matei a saudade de gente que eu não via há muito tempo. O escalador Daniel Fernandes, organizador do evento, conseguiu reunir gente de Criciúma, Blumenau, Florianópolis, Itajaí, Balneário Camboriú, Joinville, Campo Alegre, Jaraguá e Curitiba.

O rafting inicia há uns 50 km de Bariloche e termina na divida com o Chile, são 12 km de corredeiras percorridos durante duas horas de descida. Fomos com uma operadora de turismo que oferece todo o pacote, você só precisa saber qual é a direita e qual é a esquerda para obedecer aos comandos do guia do bote. No mais o contato com a natureza e o medinho de se esborrachar nas pedras completa o dia. A experiência deste rafting foi algo bem comercial, quando viajo para escalar sempre vamos de maneira autônoma o que dificulta um pouco porem dá mais sabor de aventura. Fiquei mesmo com vontade de descer um rio de rafting com amigos e quem sabe um dia saber algo mais de rafting do que só “Remar para direita!” e “Remar para esquerda!”.








Com seus 1.430m de altura o Morro do Anhangava é um conhecido centro de escalada e montanhismo. Considerado o melhor campo-escola do sul do Brasil, o granito do morro do Anhangava oferece lindas vias de escaladas para quem tem interesse em se iniciar no esporte, e também para os praticantes mais avançados. Para os interessados em trekking, existem duas possibilidades de ascensão até o cume desta montanha. Os mais ousados e preparados podem optar subir pela frente da montanha, o que inclui trechos de escadarias de aço e algumas rampas de rocha A subida é íngreme e leva em torno de uma a duas horas. Outra opção um pouco mais longa, porém com menor inclinação, é a trilha da asa delta. Este caminho contorna e sobe a montanha pela sua crista, oferecendo uma linda vista de alguns setores de escalada. Pela trilha da asa delta se leva entre duas ou três horas de subida. Trilhas para passeios de bicicleta também existem na região em torno do morro. E nos dias de tempo bom também é possível ver parapentes sobrevoando a região. O morro do Anhangava oferece bom local para decolagem e pouso, sendo muito freqüentado por praticantes de vôo livre.
O Parque Estadual da Serra da Baitaca também inclui o histórico Caminho Colonial do Itupava, que liga o litoral ao planalto de Curitiba. Quando em 1693 foi fundada a Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, como foi chamada a capital paranaense inicialmente, o Caminho do Itupava já estava lá. Acredita-se que índios já usavam o caminho para busca e caça de alimentos.